A ida ao psicólogo...

Há muitas ideias feitas sobre a ida a uma consulta de psicologia...

Eu não estou mal da cabeça!... Na verdade, há muito, mas mesmo muito tempo, que a Psicologia deixou de ser a Ciência que trata dos "doidos". Longe vão os tempos em que o Psicólogo servia para "bombeiro" dos que os outros achavam que estavam em crise: famílias que "não os podiam mais aturar!" fossem eles filhos "delinquentes", "velhos tarados!", mulheres "histéricas", maridos "abusadores e borrachos", e todos os demais portadores de "taras e manias"... Na vida moderna, a diferença entre o normal e o patológico é cada vez mais ténue. Mais difícil se torna, por isso, identificar as situações. Vemos, ouvimos, lemos, pasmamos com factos que vêm à tona do quotidiano. Podemos ter desvios de comportamento e levar uma vida social responsável e "normal", mesmo com sucesso, e bem aceite por todos. Um problema existe quando o reconhecemos como tal, ou quando começamos a suspeitar que pode vir a perturbar o estado de tranquilidade que nos ajuda a sentirmo-nos "relativamente felizes". Quando o alarme toca, devemos despertar. Na vida moderna, rápida e voraz, quantas vezes damos por nós a pensar: "Se alguém me pudesse ajudar a pensar... a encontrar uma saída..."

Há umas duas décadas atrás, lembra-me de uma cliente que entrou no consultório, com o seu filho deficiente, tendo-me perguntado, no final da conversa, se não podia "classificar o filho como deficiente profundo". "Que não" disse eu, pois tal não era verdade. Disse-me ela, sorridente : "Se o sr. doutor não fizer isso, vou a um colega seu que faz." Não sei se o conseguiu. Percebi, depois, que queria apenas ter direito a um subsídio social de apoio com o valor máximo. Há, pois, quem se envergonhe de ousar, sequer, sussurrar uma dúvida sobre os seus estados de alma actuais, tal como há quem não tenha o menor pudor em procurar usar o psicólogo como instrumento servil da sua gula.

Isso é só para os ricos!... Quem marca uma consulta tem receio do que vai ter de pagar. Não na primeira consulta, mas no que ela arrasta. Porque também é voz comum o "Tenho que recordar a vida toda!" ou o "Fazem-me falar e nunca me dizem nada!" ou ainda "Estão sempre a desconfiar!"

Deverei dizer: não tem de ser sempre assim. Quem procura o psicólogo quer soluções, sobretudo quando a aflição é muita, e o mundo parece querer desabar a qualquer instante. E quem necessita deve ser atendido, mesmo que o dinheiro não abunde. Quanto ao resto: quem vai ao psicólogo, não é forçosamente um paciente / doente. Pode apenas ser um cliente. Um ser humano que pode ser encarado de olhos nos olhos. O tempo do divã, com o analista ao lado, e o relógio (discreto) a contar os minutos em euros, ainda existe algures por aí. Mas também existem outros modos de ver. O cliente merece a nossa "consideração positiva incondicional". E o espaço de consulta é um lugar íntimo de partilha com papéis bem diferenciados. No confronto das ideias, nas perguntas que se erguem, nas soluções múltiplas que se vão desenhando e refazendo, a Vida enfrenta um turbilhão, enovela-se, até que se encontra "um fio à meada". O Psicólogo está lá, para ajudar. Mas quem decide o Destino é o cliente.